6. Ética no Novo Testamento
A
ética no N.T. tem com o objetivo a santificação do coração humano. A mensagem
do N.T. proporciona uma esfera de mudança que vai além dos ensinamentos do A.T.
Vemos essa ética revelada na pessoa de Jesus com o intuito de aplicar uma
adoração perfeita ao Pai, seja na maneira significativa de adoração implicada
em obediência aos seus preceitos e implícita em espontaneidade (João 4. 24),
como também revelada numa vida de perfeição em servir a Cristo numa vida plena
de amor ao próximo.
O
sentido da ética no N.T. está na santificação. Cada vez que o cristão busca a
santidade o amor vai amadurecendo na sua vida. Quanto mais uma vida de piedade
é alcançada diante de Deus, ainda mais as atitudes de amor para com o próximo
floresce. Um exemplo da ética incorporada na vida do cristão para com o próximo
é o exemplo de uma flor, quanto mais pólen, mais cheiro, mais vida ela tiver,
mais pássaros serão atraídos para si, mais insetos procuração o seu sabor, mais
pessoas procurarão cultivá-lo. Assim é o fruto de uma vida ética em santidade
proporcionada no N.T.
6.1. Ética nos Evangelhos
Os
quatro evangelhos relatam a vida de Cristo e o Seu ministério na terra. Além de
relatar a vida, os atos de Cristo, também revelam os seus ensinamentos que vão
além da doutrina ensinada na época; como também vai além de qualquer código de
ética existente ou que venha a existir.
A
doutrina de Cristo é a base para toda a ética cristã, como também para os
escritos do N.T., ela é o ápice da vida primitiva da igreja cristã, como é a
fonte de inspiração para a doutrina apostólica, para a vida daqueles que servem
ao Caminho e dos futuros pais da igreja que desdenharam doutrinariamente sobre
os ensinos de Cristo. A única palavra que descreve a ética cristã exposta por
Jesus no N.T. é a santidade, podemos observar os ditos de Manson acerca desse
assunto:
“(...)
Os rabinos judeus arbitraram sobre o mandamento e construíram, à sua própria
maneira, como convocação ao povo de Deus, que fossem separados de todas as
abominações dos arredores pagãos. A santidade exigida deveria ser modelada sobre
o fogo purificador de Deus no qual a presença do mal não pode subsistir. Jesus
não destruiu este ideal. Ele o completou. Ele não requereu meramente que seus
seguidores se mantivessem limpos da contaminação do mal, mas também que
mostrassem em suas vidas alguma qualidade positiva semelhante à positiva e
criativa bondade de Deus.” (p. 50)
Nos
quatro evangelhos podemos passar sobre a questão dos evangelhos sinóticos
(Marcos, Mateus e Lucas) e observamos que além de manter um público específico,
eles também mantem parcerias entre si, ou seja, versões relatadas de maneiras
similares, mas peculiarmente diferentes, não opostos, mas diferentes em
detalhes, ou seja, apenas detalhes significativamente ricos que não aparecem
nos outros, mas nunca divergentes entre si. Temos também o evangelho de João
que além de relatar poucos fatos semelhantes é totalmente peculiar em sua
mensagem, esclarecendo a doutrina de Jesus que estava sendo confundida com o
gnosticismo que estava surgindo na época. De certa forma, a resposta do
apóstolo João ajudou a dar uma dimensão maior do plano de Deus na ética do
Reino em Cristo para a igreja.
Ao
tratar da ética do N.T., não há como não se deparar com o Sermão do Monte, como
diria Manson, “O Sermão do Monte não é o único programa de conduta cristã no
Novo Testamento; mas é sem sombra de dúvidas sobre todos os outros a grande
proclamação da nova visão da justiça moral.” (p. 42) Além disso, o Sermão do
Monte também é a espinha dorsal de toda a conduta do N.T., seja nos escritos
evangélicos, como nas epístolas paulinas e nas pastorais, observamos que a
ética contida no Sermão do Monte é a base de toda essa doutrina, ou seja, nunca
haveria o doutrinamento do N.T. se não houvesse tal sermão dito pelo Mestre.
A
ética do N.T. trata não apenas a sua maneira de se portar diante de Deus, mas
dá um âmago maior com relação à responsabilidade moral perante de Deus e a
questão efêmera do pecado. Jesus trata não apenas de como se portar perante o
Pai, mas como se deve portar perante a Lei, perante os homens, e até mesmo
perante as questões polêmicas, como por exemplo: casamento, divórcio,
homicídios, riquezas, esmolas, jejum, oração, etc. Tudo o que a humanidade
necessita da ética divina é encontrada nos evangelhos, nos ensinamentos de
Cristo.
Ao
ter um comparativo com a Lei, Jesus na verdade não destruiu, mas pelo
contrário, trouxe uma amplitude da verdadeira Lei, um esclarecimento do que
realmente era importante na Lei, como também um código celestial superior a Lei,
que estava limitada. Os evangelhos revelam o doutrinamento de Cristo. Tal doutrinamento
mostra que a Lei não passará, porém revela que ela já foi cumprida em Jesus, e
o Mestre deixou um código de conduta que ultrapassa qualquer padrão mosaico,
dando assim uma aliança superior, porém mais íntima, e ao mesmo tempo mais
rigorosa.
A
questão do rigor da doutrina de Cristo é a amplitude em que a graça tem
comparado com a Lei. Para a Lei, bastava apenas o sacrifício e o ressarcimento
para que o pecado fosse perdoado, como vimos na ética do A.T. tratava mais com
a questão aparente, porém a ética do Reino trabalha com o íntimo, com a figura
do pecado e da responsabilidade humana. O Reino trabalha com a questão do homem
em relação a Deus à priori, e ao próximo. Essa é toda a limitação do Reino,
porém é uma limitação geral, porque não há como a humanidade ultrapassar essa
linha entre “eu” e o “próximo”, e, Cristo, ultrapassa na ética do Reino
colocando em especial a pessoa do Pai como o Juiz aonde todos irão comparecer,
e ao Criador a quem realmente devemos prestar contas.
Uma
coisa dever bem entendida com relação à responsabilidade de prestação de contas
e com a ética do Reino. Todos estamos diante de Deus, o Criador e Juiz, porém
Ele conhece as fraquezas humanas, para isto enviou o Seu Único Filho para que
pagasse o preço por nós, tornando-se nosso Advogado perante o Pai. Todos são
responsáveis perante os seus atos? Sim. Mas os que servem ao Senhor Jesus,
mesmo tendo tantas fraquezas para serem tratadas há uma garantia do perdão que
foi concedido na Cruz do Calvário, tal Cruz concede aos que querem entrar no
Reino o perdão, como também a liminar paga perante o Pai, ou seja, mesmo com
tantos erros que são cometidos na caminhada, o fato de procurar viver uma vida
de santidade que agrade ao Pai continuamente, sem desanimar, encaixa-se no que
observamos em Paulo em Romanos 8. 1: “nenhuma condenação há”. Mais uma questão
que temos de entender com a ética do Reino é que ela é uma ética presente para
àqueles que querem entrar no Reino futuro. Quando Jesus dizia que o Reino de
Deus virá, é exatamente sobre o Reino futuro que há de vir, mas quando Ele
dizia que o Reino estava presente e com poder é o significado primordial da sua
ética, presente, iminente e real. A lógica de Cristo é simples, o Reino virá e
para entrar nesse Reino, só há um caminho, a ética vivida em um caminho de
santidade. Encerramos compreendendo a dimensão do Reino de Deus como ensina
Manson:
“Nós
estamos vivendo no reino de Deus sob o princípio de Cristo. Cristo é competente
para suprir todas as necessidades que nós venhamos a demandar-lhe. Tanto como
em relação ao bom Rei, na ideia hebraica de Reino, nós podemos confiar no seu
julgamento. Isto significa que nós não estamos com as mãos e pés amarrados a um
código escrito. De maneira igual, não abandonamos nossas próprias estratégias.
Temos, antes de nós, os registros do reino no Antigo Testamento, o Novo
Testamento e a história da Igreja. Desses registros nós podemos aprender acerca
dos caminhos do reino. Mas temos também um rei vivo; e temos a garantia de sua
ajuda direta pelo seu Espírito quando procurarmos entender e aplicar a vontade
de Deus em nossas próprias ocupações. A fonte de revelação não secou. O Cristo
vivo está lá para apontar o caminho a todos quanto estão preparados para
seguí-lo.” (pp. 58, 59)
6.2. Ética nos escritos paulinos
Os
escritos paulinos contém um arcabouço da ética do Reino, exposta duma maneira
concisa e complexa. Ao observar a doutrina paulina, não pode ter em mente a
questão da própria escolaridade do mesmo apenas, mas também a questão do porquê
dele ter escrito, o para quê que foi escrito, pra quem ele realmente escreveu,
o quê ele queria falar? Tais perguntas básicas na filosofia e na linguagem são
essenciais para entender Paulo e sua doutrina acerca da ética do Reino,
simplesmente do fato do próprio ser um apologista, indica fortemente o caráter de
suas cartas como respostas as situações encontradas nas igrejas do primeiro
século que o deixava preocupado.
Paulo
sempre procurou manter posições firmes acerca da ética mais estritamente
relacionada a moralidade, exposta duma maneira simples como o remédio para
certos problemas que as igrejas enfrentavam ou que vinham deixando acontecer,
dando uma vista grossa sobre tais problemas. Podemos citar como exemplo as
situações em cada carta.
Observamos
que Paulo aborda vários assuntos e diversas explicações, por exemplo, em
Romanos 1. 18-32, ele procura explicar o porquê da depravação moral da
humanidade com relação ao pecado, enquanto no cap. 7 ele parte para o dilema
que o cristão sofre em querer cumprir a Lei e o impedimento do pecado pessoal,
se for feita uma ponte desse tema com Gálatas 5. 16-26, será observado que
trata-se da luta entre a carne e o espírito, ponteando assim sobre a liberdade
cristã em 1 Coríntios 6. 12.
Paulo
também trata das questões do comportamento do cristão com relação a sacrifícios
de ídolos, a carnes, comidas, etc. observados em Romanos 14, 1 Coríntios 8,
Tito 1. 15. O doutrinador também trabalha sobre a questão do casamento em 1 Coríntios
7, Tito 2. 1-7. Também vai até a questões mais polêmicas com relação ao
verdadeiro dever de como criar os filhos, como ser um bom esposo, como ser uma
boa esposa, um bom servo, um bom senhor, etc., nos versículos de Efésios 5. 28 –
6. 9; Colossenses 3. 18 – 4. 1; 1 Timóteo 3.
Poderíamos
citar mais assuntos do doutrinador, porém a melhor maneira é conhecendo cada
vez mais seus escritos, perguntando versículo por versículo, etc. Ao fazer esse
trabalho de pesquisa, muitas coisas serão absurdas para a era pós-moderna em
que vivemos, como por exemplo, o pensar de Paulo com relação a mulheres no
ministério. A visão machista judaica que o mesmo tinha com relação a mulheres,
temas comprometedores que não cabem na sociedade ocidental como a pós-moderna.
São temas polêmicos, que merecem ser observados não com um olhar radical, nem
com um olhar liberal sobre os assuntos, mas como pesquisadores, sem querer
apagar tudo o que foi dito pelo doutrinador, afinal ele foi inspirado pelo
Espírito de Cristo que expandiu a ética do Reino.
6.3. Ética nos outros escritos
Os
outros escritos trazem as questões concernentes à ética cristã. Por exemplo, em
Hebreus, o autor além de falar do porquê estamos vivendo na época da Nova
Aliança, a ética do Reino, o mesmo irá explanar sobre a questão da ética na
vida prática em convivência com a igreja e com os de fora nos cap. 12 e 13.
Pedro
também dá uma enorme contribuição nas suas duas epístolas pastorais.
Principalmente ao tratar sobre a base da ética cristã que é a santidade como
está dita em 1 Pedro 1. 15, 16. Vemos a preocupação do ministério pastoral com
relação ao comportamento da igreja em si.
João
trata minuciosamente sobre a grande questão comportamental na ética cristã, que
é o amor ao próximo. Todo o ensino joanino está vinculado a isto, para ele o
amor é a base da convivência chamada por Cristo, sem contar que é o novo (e antigo)
mandamento que a igreja comprovará ser realmente reconhecida como igreja, ou
seja, o amor. O único vínculo que cada um mostrará ter com Cristo aqui na
terra, ou seja, expresso em testemunho para dizer que realmente é cristão, é o amor,
não fingido, mas sincero. Um amor não só de palavras, mas em ação, em
comportamento, em relacionamento. 1 João trata especificamente dessa grande
questão importante do Reino, porque sem o amor, de nada adianta como diria o
doutrinador em 1 Coríntios 13.
Ao
tratar das epístolas pastorais é imprescindível não voltar os olhos para a
epístola de Tiago, a qual é um arcabouço da ética cristã. A prática da ética,
do Reino, o comportamento, a maneira de agir, de pensar, de fluir da ética
cristã é encontrada em Tiago. Por mais que alguns temas dessa epístola queira
desfigurar outros temas expostos no N.T., se for olhado com um olhar bem
direcionado, observaremos que há a complementação, um exemplo é o texto de
Romanos 1. 16, 17 e Tiago 2. 14-26. Alguns temas são observados em Tiago:
1)
As provações na vida do cristão (1.
3-4).
2)
A sabedoria do alto (1. 5-6) e o homem
de coração duvidoso (1. 7-8).
3)
A temporalidade das riquezas (1. 9-11).
4)
A questão da tentação do coração do
homem (1. 12-15).
5)
O propósito da verdadeira religião, uma
vida de santidade (1. 16-27).
6)
A acepção de pessoas (2. 1-13).
7)
A fé e as obras (2. 14-26).
8)
A ética da linguagem (3. 1-12).
9)
A sabedoria que vem do alto (3. 13-18).
10)
A origem do mau (4. 1-10).
11)
O juízo divino e o tempo divino (4.
11-17).
12)
A injustiça advinda das riquezas (5.
1-6).
13)
A iminente vinda de Cristo (5. 7-11).
14)
Os juramentos (5. 12).
15)
O ministério de compaixão dentro da
igreja (5. 13-15).
16)
O poder da oração de fé (5. 16-18).
17)
A questão dos desviados (5. 19-20).
Podemos
encontrar no mínimo 17 temas diferentes relacionados à ética cristã encontrados
em Tiago. Temos na ética do Reino a espinha dorsal da ética cristã, em Tiago
temos os órgãos da ética cristã. O direcionamento, a funcionalidade, o
propósito da ética cristã são encontrados em Tiago, de uma maneira prática que
proporciona o trabalhar de uma vida realmente liberta, se o cristão tiver todas
as bênçãos espirituais (Efésios 1) e não praticar o chamado para o quê ele
realmente foi feito nova criatura (Efésios 2. 10; 2 Coríntios 5. 17), então a
sua fé é morta (Tiago 2. 17).
A
doutrina ética em Tiago é nítida com relação ao tema liberdade para a prática
do bem. Se o cristão realmente teve um arrependimento sincero, e um encontro
com Jesus, a ética do Reino na responsabilidade espiritual está inserida, a
dimensão do que aconteceu e o que está no porvir explicada por Paulo é
revelada, e a ética cristã na vida cotidiana ditada por Tiago deve ser uma
realidade, sempre regada ao amor joanino, completando assim o ciclo da ética
cristã no N.T.